Festival Le Millesime



Na última quinta-feira começou aqui bem no centro da cidade o festival Le Millesime, na praça Victor Hugo (todo centro das cidades francesas têm sempre uma praça Victor Hugo, uma praça de la Republique, uma rue Moliére, uma rue Voltaire e uma rue Rousseau. Aí depois, nos arredores, é que vem o resto...). O festival Le Millesime de Grenoble é um evento onde vários pequenos e médios produtores de vinho e de alguns comes de toda a França se encontram para mostrar e divulgar seus produtos. Tem degustações e uma programação musical de clássica e jazz muito interessante, e é aberto ao público por 6 euros. Minha primeira impressão foi a de que os pequenos produtores de vinho não sabem bem que a França é tida como produtora de alguns dos melhores vinhos do mundo. Não são estes os vinhos que estavam neste evento, é claro, mas a qualidade média geral, como sabemos, é muito boa. E eles são humildes e simpáticos.



O tema central desta 13ª edição do evento foram os vinhos da Córsega, que eu não conhecia. A ilha tem três principais cepas endógenas (naturais da ilha), e que só se encontram por lá. A Vermentinu, que produz um excelente vinho branco, equilibrado e de média vida, que pode satisfazer muito bem tantos aos paladares femininos como aos masculinos. Ao sul tem a Sciaccarellu, prima irmã da Sangiovese da Toscana, que é chamada assim porque esta palavra significa "crocante" no dialeto corsa, como esta uva. Gera um tinto suave, claro e frutificado. E ao norte a senhora das corsas, a uva Niellucciu, que eu não sei o que significa mas que produz um tinto bastante peculiar, encorpado e mais complexo. Suas raízes podem chegar a 30 metros de profundidade por entre o solo rochoso da ilha e seu vinho tem um amargor de fundo que curiosamente de alguma forma eu já associava à imagem que tinha antes da Córsega. Algo meio de piratas ou de campesinos rústicos e perigosos, meio sociedade secreta, enfim, um amargor misterioso.



O problema é que boa parte dos presentes usava o cuspidor de vinho, aquele baldinho que depois eles devem usar para fazer o coq au vin. Como nem de longe o evento tratava de degustações profissionais, e nem amadoras com objetivos técnicos, era só uma grande promoção, não entendi porque o cuspidor fazia tanto sucesso. Eu bebi mesmo, a tarde inteira, voltei no dia seguinte e continuei bebendo. Com calorosos 9 graus celsius, bordeaux, bourgognes e corsos brigando por mim em cada barraquinha, uns saucissons e uns queijinhos da terra como tira gosto, e boa música no ar, oras, às favas o baldinho...

Grenoble, a "capital dos Alpes"



Grenoble é uma cidade de 553 mil habitantes segundo a wikipédia, conhecida como a "capital dos Alpes". Cheguei há um mês. Antes de vir achei que encontraria uma cidade industrial, cheia de neve por todos os lados. Por sorte me equivoquei, de longe. É sim uma cidade industrial, capital da tecnologia de ponta francesa, de pesquisas, aqui tem até o maior acelerador de partículas da Europa. Um acelerador de partículas deve ser uma coisa fantástica, mas não me interessa. E ninguém que não venha especificamente por isto vai ver estas coisas. Por outro lado é também a capital dos esportes de inverno da França. Como na última vez que esquiei foi como iniciante ao nível zero, há alguns anos, e tinha permanentemente a sensação que quebraria a perna, resolvi nunca mais entrar na neve desde que não fosse para chegar a alguma cabana com lareira e comida. Acho que os esportes de neve vão ter que esperar um pouco mais para que eu volte a falar deles, sem saudades, quando eu estiver novamente tomando caipirinha em alguma das nossas deliciosas praias bem brasileiras.



A cidade fica na região de Rhône-Alpes, mas na parte "pé dos Alpes", não tem grandes vinhos aqui, não estamos nas Côtes du Rhône, mas tem grandes supermercados! Genoble é a terra da nozes, tem nozes por todo lado, e o prato principal da região é o Gratin Dauphinois, que na sua receita original (no link) é uma fornada de camadas de rodelas de batata com creme de leite, manteiga e um pouco alho. Bem simples.



Como incremento colocam um pouco de noz em pedaços ou ralada, e às vezes colocam também um pouco de bacon. Subindo um pouco mais ao norte gratinam com queijo gruyère. Quando é colocado o queijo reblochon, cebola e pedaços de peito de porco ao invés de bacon, vira o Tartiflette, o mais típico prato da região das Savóias. Estes dois pratos se encontram por aqui em todos os restaurantes dirigidos por nativos da região, na faixa de 8 a 15 euros, e são capazes de te segurar em pé por quase um dia inteiro. Mais prá frente vou contar uma experiência que tive com a Tartiflette...



Blog do Enio

Olá, bem-vindo ao meu blog! Aqui vou contar um pouco de algumas experiências que passarei em quase 1 ano e meio em que estarei morando na França e na Itália, minhas sedes serão Grenoble neste ano, no sudoeste francês, e Firenze em 2008. Venho para um master em Comunicação, Mídia e Estudos Culturais, patrocinado por uma bolsa européia. Neste ano sabático, farei também algumas pesquisas para "olhar de dentro" o que os franceses e os italianos estão fazendo em matéria de comunicação turística e eno-gastronômica. Tem tudo para ser genial!



Não vou escrever para quem conhece muito bem de vinhos e gastronomia das regiões pelas quais passarei, vou escrever para quem gosta muito disto, mas não necessariamente é um grande entendedor. Aqueles que já conhecem muito bem o assunto vão encontrar aqui um ponto de vista mais cultural, do povo, da sociedade, do que técnico. Aqueles que não conhecem vão encontrar um monte de coisas.



Ah,.. fotos e vídeos de celular, e muitos links dentro dos textos... cool..! Allez-y..


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