Nos posts seguintes vou falar de Beaune com mais detalhes, mas aqui vale citar que é uma das mais bonitas pequenas cidades da França. Chegamos lá, pousamos, e fomos direto ao Marché aux Vins, no centro da cidade. Por 10 euros você aprende um bom bocado sobre os vinhos da região. São 15 degustações em um circuito cave turística, mas que te dão a localização de cada domínio e você sai de lá sabendo quais os que mais gosta, além de dar alguns tropeços no chão de pedra no escuro. E para quem nunca participou de uma degustação, aproveite, você recebe na entrada uma caderneta de notas e pode então "oficialmente" começar a preparar as papilas. Nas minhas anotações, entre os vinhos disponíveis, os melhores foram o village Nuits-Saint-Georges e o Corton premier cru. A classificação AOC básica da Borgonha e de outras regiões é simples: primeiro vêm os vinhos com apelação da região, os Borgonha, genéricos, que tem a indicação no rótulo de qual vilarejo vieram, em tamanho bem menor, e de qual maison. Depois vêm os villages, que levam já o nome da cidade em tamanho grande, primeira apelação. Aí vem os premier cru, que levam o nome da cidade e a menção premier cru, com a assinatura menor da maison. Estes são em geral muito bons vinhos. E por fim os grands crus, que levam em destaque somente a indicação da maison e da parcela principal. Segundo a safra, estes podem ser excelentes.
No segundo dia, após uma rápida visita ao Musée du Vin, que é interessante para quem não tem nenhum contato com vinhos, fomos a Nuits-Saint-Georges. O nome romântico do vilarejo e os bons vinhos que produz formam uma certa aura em torno deste lugar. Os mais atentos vão perceber que o imaginário pode fluir solto depois da segunda taça. O que, de fato, não é nada difícil em toda a região. Visita aqui, degustação ali, um lembrete: quando degustar gratuitamente eles esperam intensamente que você compre algumas garrafas. Eu estava ali para isto, mas vale lembrar que na França, nada é de graça. E não precisa gastar muito, um muito bom village Nuits-Saint-Georges pode custar entre 15 e 20 euros. E é muito bom mesmo, talvez junto com outras poucas apelações, como o próprio Beaune ou o Montellier, o Nuits-Saint-Georges seja um dos que melhor se sai como village.
Próxima parada Vosne-Romanée. A vila é minúscula e não oferece nada. No centro uma tal de Maison du Vin aproveita da fama do lugar para vender algumas garrafas de seu domínio, mas nada de especial, é só uma lojinha mesmo. Nesta vila não se visita caves, mas há uma exceção, a domaine Audiffred, de Bernard Audiffred e filho, uma pequena cave familiar que produz um vinho ainda um pouco rústico mas marcado por um delicioso frescor da pinot, muito bom, e que vale também pela simpatia. São mais "brasileiros". É quase uma garagem, mas além do bom papo eles podem te dar uma boa aula de vinhos da borgonha. Depois disto uma rápida passada pela frente e fundos da Romanée-Conti, não aceitam visita, não insista, passeio pelos vinhedos, corpos e corações aquecidos pelos vinhos, decidimos seguir a Dijon dirigindo bem devagar, bem na direita. Dica: após as visitas e degustações, para não dormir no volante e invadir um vinhedo com o seu carro (o que valeria algumas fotos), ponha as garrafas compradas no chão do banco de trás... o barulho delas é lindo, e te deixa o tempo todo acordado pensando na próxima taça...
Nos próximos posts detalharei Beaune e Dijon, dicas de hotéis, restaurantes e bares... e mais o que me lembrar.
As Maison de la Culture criadas nos anos 60 por André Malraux, entre outras coisas poderoso ministro da época, continuam intensamente ativas ainda que restem poucas em todo o país. A de Grenoble é enorme e imponente e mantém diariamente ótimas apresentações e eventos de diversos tipos, de teatro, ópera e conferencias até festas de musica eletrônica. Tem para todos o gostos e idades. A idéia inicial era a de levar a cultura "legítima" a todas as cidades, não funcionou, e se mantivessem uma política de integração como queriam no início não seriam caros os espetáculos. Na verdade mesmo não são tão caros, apenas deixam de ser baratos. Ontem assisti a apresentação da Orquestra de Ópera de Lyon. No programa: Wagner e Strauss. Um excelente auditório, uma performance magnífica (de chorar), uma interessante livraria na entrada, um bar com taças de champagne a 6 euros, e um público a altura (que apesar disto também aplaude na hora errada...). Tudo a 40 euros, mais 1 para a entrega do bilhete em casa. Foi às 19h30, e fui de bicicleta. Muito frio no rosto. Queria evitar mas acho que vou ter que comprar também um protetor de orelhas para as pedaladas, o problema é que não combina bem com os concertos. Apesar das inúmeras bicicletas no estacionamento próprio na entrada, o modelito no local era do tipo intelectual chique. É divertido ver na saída o pessoal de sobretudo, chapéu, foullard e salto alto montando em suas bicicletas a caminho de um bistrô qualquer. Ainda não descobri se o forte hábito da bicicleta aqui é só tradição ou se já é também um pouco de medo do aquecimento global, mas no final funciona bem. A pedalada fica mais elegante...
Aqui, a Maison de la Culture de Grenoble
A cidade tem uma programação cultural intensa. Na verdade toda pequena aglomeração na França tem seu próprio livreto de programação cultural, com um monte de opções, claro que nem por isto boas, mas com exceção de segundas-feiras, sempre tem onde ir. Fui ao teatro, no Amphidice – o anfiteatro da Univ. Sthendal, assistir "L'importance d'être Constant", um Oscar Wilde pela versão da atual produção intermediária francesa, que situa a peça no inicio dos anos 1960 e que pela adaptação realizada não precisariam manter todo o texto. Pelo menos pouparia um pouco o público. Mas a montagem teve um resultado profissional, dois atores oks, enfim.. Custou só 5 euros. Aliás uma coisa divertida aqui é que uma entrada inteira de cinema custa 6,50 euros e a entrada de estudante custa 6,30. Pois é, só 20 centimes de diferença...eh...
Na última quinta-feira começou aqui bem no centro da cidade o festival Le Millesime, na praça Victor Hugo (todo centro das cidades francesas têm sempre uma praça Victor Hugo, uma praça de la Republique, uma rue Moliére, uma rue Voltaire e uma rue Rousseau. Aí depois, nos arredores, é que vem o resto...). O festival Le Millesime de Grenoble é um evento onde vários pequenos e médios produtores de vinho e de alguns comes de toda a França se encontram para mostrar e divulgar seus produtos. Tem degustações e uma programação musical de clássica e jazz muito interessante, e é aberto ao público por 6 euros. Minha primeira impressão foi a de que os pequenos produtores de vinho não sabem bem que a França é tida como produtora de alguns dos melhores vinhos do mundo. Não são estes os vinhos que estavam neste evento, é claro, mas a qualidade média geral, como sabemos, é muito boa. E eles são humildes e simpáticos.
O tema central desta 13ª edição do evento foram os vinhos da Córsega, que eu não conhecia. A ilha tem três principais cepas endógenas (naturais da ilha), e que só se encontram por lá. A Vermentinu, que produz um excelente vinho branco, equilibrado e de média vida, que pode satisfazer muito bem tantos aos paladares femininos como aos masculinos. Ao sul tem a Sciaccarellu, prima irmã da Sangiovese da Toscana, que é chamada assim porque esta palavra significa "crocante" no dialeto corsa, como esta uva. Gera um tinto suave, claro e frutificado. E ao norte a senhora das corsas, a uva Niellucciu, que eu não sei o que significa mas que produz um tinto bastante peculiar, encorpado e mais complexo. Suas raízes podem chegar a 30 metros de profundidade por entre o solo rochoso da ilha e seu vinho tem um amargor de fundo que curiosamente de alguma forma eu já associava à imagem que tinha antes da Córsega. Algo meio de piratas ou de campesinos rústicos e perigosos, meio sociedade secreta, enfim, um amargor misterioso.
O problema é que boa parte dos presentes usava o cuspidor de vinho, aquele baldinho que depois eles devem usar para fazer o coq au vin. Como nem de longe o evento tratava de degustações profissionais, e nem amadoras com objetivos técnicos, era só uma grande promoção, não entendi porque o cuspidor fazia tanto sucesso. Eu bebi mesmo, a tarde inteira, voltei no dia seguinte e continuei bebendo. Com calorosos 9 graus celsius, bordeaux, bourgognes e corsos brigando por mim em cada barraquinha, uns saucissons e uns queijinhos da terra como tira gosto, e boa música no ar, oras, às favas o baldinho...
A cidade fica na região de Rhône-Alpes, mas na parte "pé dos Alpes", não tem grandes vinhos aqui, não estamos nas Côtes du Rhône, mas tem grandes supermercados! Genoble é a terra da nozes, tem nozes por todo lado, e o prato principal da região é o Gratin Dauphinois, que na sua receita original (no link) é uma fornada de camadas de rodelas de batata com creme de leite, manteiga e um pouco alho. Bem simples.
Como incremento colocam um pouco de noz em pedaços ou ralada, e às vezes colocam também um pouco de bacon. Subindo um pouco mais ao norte gratinam com queijo gruyère. Quando é colocado o queijo reblochon, cebola e pedaços de peito de porco ao invés de bacon, vira o Tartiflette, o mais típico prato da região das Savóias. Estes dois pratos se encontram por aqui em todos os restaurantes dirigidos por nativos da região, na faixa de 8 a 15 euros, e são capazes de te segurar em pé por quase um dia inteiro. Mais prá frente vou contar uma experiência que tive com a Tartiflette...
Olá, bem-vindo ao meu blog! Aqui vou contar um pouco de algumas experiências que passarei em quase 1 ano e meio em que estarei morando na França e na Itália, minhas sedes serão Grenoble neste ano, no sudoeste francês, e Firenze em 2008. Venho para um master em Comunicação, Mídia e Estudos Culturais, patrocinado por uma bolsa européia. Neste ano sabático, farei também algumas pesquisas para "olhar de dentro" o que os franceses e os italianos estão fazendo em matéria de comunicação turística e eno-gastronômica. Tem tudo para ser genial!
Não vou escrever para quem conhece muito bem de vinhos e gastronomia das regiões pelas quais passarei, vou escrever para quem gosta muito disto, mas não necessariamente é um grande entendedor. Aqueles que já conhecem muito bem o assunto vão encontrar aqui um ponto de vista mais cultural, do povo, da sociedade, do que técnico. Aqueles que não conhecem vão encontrar um monte de coisas.
Ah,.. fotos e vídeos de celular, e muitos links dentro dos textos... cool..! Allez-y..
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